terça-feira, 18 de agosto de 2009

Autocrítica no Centro Espírita

Tranquilidade ou apatia? A atitude dos dirigentes espíritas diante da falta de público nas instituições.

Em muitos Núcleos Espíritas que visitamos para fazer palestras em Pernambuco temos nos deparado com públicos que não ultrapassam 10 a 20% dos lugares disponíveis para as reuniões doutrinárias.

O expositor, diante de uma audiência que se conta nos dedos, tenta não se influenciar por isto e faz seu trabalho da melhor maneira possível. O que chama atenção, todavia, é a postura do dirigente diante daquela situação. Nestes vinte anos de palestras do litoral ao sertão, já ouvi todo tipo de explicação ou de falta de explicação que permite percebermos a existência de três grupos básicos de comportamentos.

O primeiro grupo é exatamente o da “explicação zero”. O dirigente simplesmente não toca no assunto e faz as honras da casa, a abertura da reunião e toda sequência do trabalho como se o salão estivesse cheio. Agradece pela presença e vai pra casa satisfeito. Se perguntado a respeito responde que é assim mesmo e muda de assunto.

Outros dirigentes não disfarçam o constrangimento diante da presença de um “palestrante de fora” e tocam no assunto apresentando explicações, das quais nascem os outros dois grupos.

O primeiro é o das explicações circunstanciais, relacionadas a uma situação casual, fortuita, que explica a ausência do público naquele dia. É o último capítulo da novela, é um evento na cidade, é o feriadão e outras explicações acidentais externas à instituição. Difícil pra este grupo é explicar a “coincidência” do público pequeno toda vez que se volta ali...

O outro grupo das explicações é o que sempre culpa o desinteresse do público. Aborrecido, comenta do desinteresse das pessoas pelas coisas sérias, reclama que o mundo está de cabeça para baixo e que as pessoas perderam a referência e preferem valorizar outras coisas a estar ali na palestra.

Com certa raiva comentam: as pessoas preferem estar na praia, no barzinho, no shopping, na viagem ou no churrasco com a família do que vir ao Centro Espírita. E ameaça: depois, quando vem a dor... aí sabem nos procurar...

Não sei se você notou que apesar das diferenças dos três tipos eles tem em comum o fato de que a explicação, a causa da baixa freqûencia é sempre externa à instituição, está sempre fora do Centro Espírita.

Pessoalmente não lembro de já ter ouvido uma explicação ou mesmo uma suspeita na cabeça dos dirigentes de que o problema poderia estar na gestão da instituição. Não há autocrítica, não se avalia a oferta, só a demanda.

Não quero, nem teria condições de apresentar aqui nenhum tipo de diagnóstico, embora tenha minha leitura de algumas situações que, claramente não contribuem para aumentar a procura pelo Centro Espírita.

Temos na Doutrina Espírita uma mensagem, um conteúdo absolutamente rico, inovador e Se a instituição não faz nenhum tipo de avaliação a respeito de suas atividades, não vai conseguir ir além das desculpas genéricas ou das reclamações sem fundamento. Se os dirigentes não questionam a qualidade do que se está oferecendo nas diversas atividades da instituição, nunca terá certeza quanto às possíveis causas da ausência do público.

Por isso mesmo vale a pena se perguntar:

  • Nossa instituição é confortável? As instalações são agradáveis e os ambientes são salubres, sem umidade e sem sujeira? Nossa iluminação é adequada? As cores são atrativas? Enfim, temos um ambiente físico aconchegante que dá vontade de voltar?
  • Somos um grupo hospitaleiro? Os voluntários da instituição estão preparados para receber as pessoas com gentileza e disponibilidade? Como gestores, temos algum tipo de planejamento para melhorar esta receptividade?
  • E a qualidade das nossas reuniões doutrinárias? Os expositores estão bem preparados? Cultivam o hábito do estudo e da leitura? Tem um bom nível de conhecimentos gerais que permitam fazer relações com o conhecimento espírita? Usamos recursos multimídia nas exposições? Trata-se de temas interessante? Há algum tipo de interatividade com o público?
  • Os serviços oferecidos pela instituição à comunidade (grupos de estudo, atividades assistenciais, biblioteca, livraria, atendimento individual, etc) apresentam bons resultados? As pessoas estão satisfeitas com estes resultados? Quem e quantas pessoas sentiriam falta destes serviços caso fossem interrompidos?
  • Temos uma missão institucional? Além da missão fundamental de propagação dos princípios doutrinários de todo Centro Espírita, temos clareza de nosso papel como instituição socialmente inserida no cotidiano de uma comunidade, de um município, de um Estado e de um país?
  • Estabelecemos algum tipo de parceria com projetos, programas ou políticas públicas voltados à questões sociais, ambientais e de desenvolvimento sustentável? Integramos algum tipo de rede social ou parceria com outras organizações do terceiro setor?
  • Nossa instituição tem procurado integrar-se às linguagens e tecnologias disponíveis atualmente com a Internet como, por exemplo, sites, email, blogs, chats, grupos de discussão e outros?

Estas perguntas talvez possam ajudar a iniciar um trabalho de autocrítica, de avaliação “para dentro”, cujo objetivo seja identificar onde estamos falhando, onde podemos melhorar para que nossas instituições sejam mais atrativas, mais aconchegantes e, principalmente, mais necessárias à qualidade de vida das pessoas.

12 comentários:

  1. Comentando muito comedidamente,meu aplauso de pé para o texto.Beijo no coração.

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  2. Caro Fernando.

    Seus comentários são asolutamente coerentes e alcançam, asseguro-lhe, também as demais regiões do país, onde encontramos inúmeros centros espíritas em situação semelhante.

    Poderíamos estender seus comentários para dois outros eixos: 1)as atividades mediúnicas, onde o cuidado com os estudos e as práticas caminham a passos largos para a negação da própria mediunidade, no sentido de reduzi-la ao máximo em importância como atividade do centro, com consequências imediatas e diretas sobre os médiuns, atuais ou potenciais; 2) a centralização das atividades no caráter consolador/religiosista, tornando monótonas, repetitivas e desinteressantes as reuniões públicas, que, assim, viram as costas para a realidade social e perdem a oportunidade de inserir o centro nas grandes questões que tocam a vida dos indivíduos e da própria sociedade.

    Entre as perguntas que você faz, eu colocaria ainda as seguintes:

    * As reuniões públicas atendem ao princípo da interação comunicativa, permitindo a livre expressão do pensamento aos participantes, segundo o critério do dialogismo?

    * O ambiente está preparado, com abertura suficiente para que os participantes possam sentir e expressar, por diversos modos, a sua satisfação por estarem ali naquele momento?

    * A imagem do centro espírita junto ao ambiente comunitário é suficientemente forte para atrair os indivíduos interessados em conhecer o modo como a espiritualidade é vista e interpretada pelo Espiritismo?

    Finalizando, é de se lamentar muitíssimo que muitas dessas casas espíritas são as mesmas em que o princípio da negação se encontra à frente do princípio da afirmação. Assim, em muitas delas, as proibições superam as liberalidades e estão na base do clima interno. Tudo é proibido e nada é permitido. Chega-se ao extremo de proibir a manifestação da satisfação pelo aplauso até mesmo em momentos artísticos, sob a preocupação do cuidado - logo se vê, excessivo - com uma certa disciplina interna. Privilegia-se o sofrimento em lugar do prazer.

    Grande abraço.

    WGarcia
    Recife-PE

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  3. Participo , há quase oito anos , do Grupo Espírita Novo Alvorecer ( Cordeiro,Recife). As instalações são simples , o conforto é mínimo, a biblioteca quase inexiste, porém a integração entre os trabalhadores e frequentadores é ótima, todos se conhecem, confraternizam-se, enfim, há uma família .Além disso, o trabalho é levado a sério ( busca-se aprimorar,cada vez mais,a qualidade dos conhecimentos sobre o Espiritismo,não só dos trabalhadores, mas de todos que têm espaço para interagir em trabalhos de estudo coletivos).Como resultado , temos uma elevada qualidade ( conhecimento e convivência fraterna ) e público grande e interessado em colaborar nas atividades. Itamar

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  4. Participo de um centro espírita ( Grupo Novo Alvorecer, Cordeiro,Recife), há oito anos.As instalações são simples, o conforto é mínimo,a biblioteca quase inexiste, mas se busca o máximo de conhecimento doutrinário ( palestras , terapia de estudo, perguntas e respostas)e o dia a dia ocorre com intensa convivência fraterna entre todos.Por isso,grande é o número de participantes das atividades , o nível de informação é alto e o relacionamento é de uma grande família.Itamar Dias Noronha

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  5. Participo, há oito anos, do Grupo Espírita Novo Alvorecer ( Cordeiro, Recife). As instalações são pouco confortáveis, a biblioteca quase inexiste , mas o nível de conhecimento doutrinário é bom , a participação dos frequentadores ocorre constantemente ( terpia do estudo , perguntas e respostas) e existe convivência de uma grande família . Os trabalhos são apresentados para , em média , cem pessoas, com bom aproveitamento e utilização de datashow.
    Itamar Dias Noronha

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  6. Amigo Wilson, obrigado pelo comentário. Você destaca aspectos fundamentais que também deveriam estar presentes na autoavaliação das instituições. Continuo seu leitor e fã assíduo.
    Forte abraço.
    Fernando Clímaco

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  7. Obrigado pelo comentário Itamar. Sem dúvida esta convivência fraternal que gera laços entre as pessoas é fator de agregação e de "fidelização" das pessoas ao grupo e transforma público em amigos e colaboradores. Um abraço a todos do Novo Alvorecer.
    Fernando Clímaco

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  8. Finalmente econtro uma cabeça que pensa de maneira semelhante a minha. Sei que existem outras cabeças iguais, mas sao difíceis de serem encontradas.
    Como EX-ator espirita, digamos assim, também já pude analisar algo bastante comum dentro dos centros espiritas: a ditadura espírita, camuflada por entre as folhas da disciplina.
    Já vi pessoas irem embora da casa por nao terem sidas convidadas para a diretoria e mais, por nao terem sido convidadas para sentarem-se à mesa dos dirigentes.
    Para começo de conversa, isso deveria acabar por distanciar demais os dirigentes do público. Creio que a GRANDE RODA de debates, intermediada por um dirigente, é bem mais atraente, por intimidar menos quem chega, e que normalmente se sente o inferior, o atrasado espiritual.
    Outra tema que sempre me chamou a atençao sao os Centros com "cara" de hospital, quando nao, com cara de velório. Essa idéia de que quadros e ornamentos nao DEVEM entrar nos centros me parece absurda. Conheço até quem qualifica um centro como espiritualista por ter quadros e de espírita por nao ter quadros, ou seja, percebo que a doutrina da libertaçao faz efeito contrário na cabeça de determinados grupos que se comportam de forma semelhante aos protestantes, que partem do inferno para o paraíso celeste numa fraçao de segundos.
    Confundem idolatria às imagens com a beleza de um ambiente. Optam, na grande maioria, por paredes brancas e móveis velhos, ou seja, o centro se parece um depósito de quinquilarias.
    Conheci poucos, viajando pelo Brasil, que me aparentaram um lugar agradável, bonito, com pessoas alegres e agradáveis. Muitos dirigentes se convertem em pessoas fechadas, sérias, como se fossem o donos da verdades, distanciando-se assim, dos meros mortais.
    Enfim, eu sou um dos que preferem ficar de fora de uma casa espírita por ver tanto encarceramento mental.

    Barreto

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  9. Prezado Fernando
    Admiro sua linha de raciocino desde a publicação do seu livro " O canto das Pedras" (pouco lido pelo movimento infelizmente).
    A questão primordial já citada em seu comentário é a falta de gestão, inclusive para todas as atividades da Casa Espírita. Esperamos que as Federativas priorizem a preparação de gestores (PRESIDENTES) capacitados com noções de Administração: Planejamento, acompanhamento e avaliação das atividades e equipe de trabalhadores preparados(capacitados). Qual a Casa espírita que planeja suas atividades anualmente? Que faz periodicamente capacitação para novos trabalhadores? Outro critério é o conhecimento da doutrina, das obras básicas e complementares. Assim teremos não só público nas reuniões, mas uma Instituição que atenda suas finalidades estatutárias.
    Heleno Vidal

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  10. Amigo Clímaco,

    Acerca do Autocrítica no Centro Espírita, entendo que esta sua boa provocação deveria ser permanente no nosso movimento espírita como um processo natural de reavaliação das nossas práticas.

    Se por um lado, como bem observado, existem as casas vazias, há que se perguntar o que fazem as casas cujas frequências são mais "populosas".

    Algumas rápidas inferências, entre várias possíveis, neste sentido, daquilo que a minha experiência também pode apontar:

    1. Contextualização da mensagem espírita. Geralmente há temas interessantes e a preocupação de que esta pauta tenha aderência ao dia a dia das pessoas, aderente à realidade social como escreveu Wilson Garcia em seu comentário neste blog;

    2. Afetividade nas Relações. As pessoas se tratam efetivamente como irmãos e não apenas da boca para fora. São afetivas na recepção, no atendimento, na integração das atividades da casa e, principalmente, no cotidiano, tornando-se, com o tempo, amigos de verdade. Procuram ser espíritas pelo coração e não espíritas de aparência;

    3. Expositores preparados. Boa vontade é importante, mas preparo é fundamental. Não se imagina aqui a criação de "divaldos",mas de pessoas que, mesmo com a simplicidade inerentes, possam transmitir uma mensagem com começo, meio e fim. Com um pensamento articulado. Com uma empatia com o público. Com conteúdo doutrinário consistente;

    4. Outras formas de abordagem do conteúdo espírita. As "casas cheias" fazem oficinas, seminários, painéis de estudo, fóruns de debate etc. Apresentam novas alternativas de interação com o seu público. São mais pedagógicas e didáticas. São escolas do espírito, isto é, não apresentam o pensamento espírita na teoria, mas a sua aplicação prática na vida das pessoas;

    5. Apelo espiritual. Há que registrar que os tratamentos espirituais atraem naturalmente público. Bem, o que estas casas estão fazendo com o público que atraem na direção da sua reeducação mental e emocional é outra história.

    O fato é que temos um conteúdo extraordinário que está sendo mal trabalhado junto às comunidades, temos que reconhecer.

    As nossas casas não estão preparadas para trabalhar com a diversidade, não sabem ser alteritárias.

    Vejamos.

    Aportam às nossas casas de aprendizagem do amor, em grau de escolaridade: analfabetos, com ensino fundamental, ensino médio, ensino superior e mais do que isso.

    Chegam às nossas casas de reeducação espiritual, em característica de aprendizagem: cinestésicos, auditivos e visuais;

    Aproximam-se das nossas casas de transformação moral: gente que nunca ouviu nada de espiritismo, gente iniciante, gente de um ano de doutrina, de cinco anos, de dez anos, de trinta anos...Todos num mesmo espaço de aprendizagem;

    Recorrem às nossas casas de assistência espiritual: miseráveis, pobres, classe média e até alta.

    Participam das nossas casas de paz e esperança: mentes dialógicas, migrantes digitais e nativos digitais;

    Estão nas nossas casas de auxílio: negros, brancos, idosos, jovens, adultos, crianças.

    E aí como operamos com esta diversidade? Desculpem a sinceridade, mas, de maneira geral, com muita incompetência. Daí não ser surpresa alguma falar-se para espíritos desencarnados nas nossas casas de regeneração moral.

    Ademais, vivemos uma mudança de época e não apenas uma época de mudanças e as demandas são mais complexas do que num passado recente e muitas delas não se apercebem deste novo contexto espiritual.

    Para debater estas e outras questões do repensar das nossas práticas, o Forespe 2009, com uma proposta refinada e focada na casa espírita, vai acontecer em novembro, dias 7 e 8, no Centro de Convenções de Pernambuco.

    Agende-se!...ou vai continuar falando para as mesmas pessoas.

    Avancemos com Jesus!

    Carlos Pereira

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  11. Parabéns pelo Blog Nando!!

    É muita proibição, é um excesso de cuidados e preocupações que limitam muito as participações dos frequentadores dos centros espíritas nas atividades da casa. Quem já estudou sobre a vida dos apóstolos antes de servirem a Jesus, percebe que o mestre não se preocupou com o passado dos seus escolhidos, mas visualizou a VERDADEIRA VONTADE DE SERVIR a partir do AGORA. Concordo inteiramente com o comentário sobre a negação da mediunidade. É uma das ferramentas de maior poder de atração nas casas espíritas e que está sendo banida quase completamente.

    Fabio Maciel
    Carpina - PE
    C.E.A.C / C.E.A.L

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